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Artigos da EINA - Inclusão

Distúrbios Neurológicos de Aprendizagem e Comportamento na Rede Pública de Ensino

Na página do “Programa Toda Criança Aprendendo” no site do MEC, encontra-se as seguintes informações:

“O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica - SAEB detectou uma situação dramática nas escolas das redes de ensino de todo o país. Segundo dados de 2001, 59% das crianças da 4ª série, ou seja, com 4 anos de escolarização ainda eram analfabetas e o que é pior a tendência detectada foi de uma queda progressiva nos padrões de rendimento escolar.

Os dados projetam a existência de cerca de 980.000 crianças na 4a série do Ensino Fundamental que não sabem ler (desempenho muito crítico) e mais de 1.600.000 que são capazes de ler apenas frases simples (desempenho crítico).

A Tabela abaixo apresenta a distribuição deste contingente estudantil pelas regiões do Brasil.”

Região Desempenho muito crítico Desempenho crítico
Norte 94.177 187.642
Nordeste 508.090 636.192
Centro-Oeste 63.320 120.424
Sudeste 243.892 426.999
Sul 74.416 197.788
Total 983.895 1.619.045
 
Fonte: MEC/ INEP, SAEB, 2001.

Uma explicação trivial para esses resultados alarmantes, e aquela assumida pelo MEC, é a de que a falha no processo de ensino decorre de uma má preparação do professor para a realização de suas atividades em sala de aula e que, portanto, a solução do problema virá com o desenvolvimento de programas de capacitação desses docentes.

A má formação profissional é um fato real, constatado com uma simples visita a qualquer escola pública do país e a muitas escolas particulares também. No entanto, uma das causas responsável por cerca de 10% dos alunos que não conseguem aprender permanece desconhecida por todos os responsáveis pela educação. Pesquisas recentes revelaram que por volta de 10% da população mundial em idade escolar sofre de distúrbios de aprendizagem ocasionados por problemas neurológicos, tais como dislexia, discalculia, hiperatividade e distúrbios de atenção, que acarretam um desenvolvimento insuficiente desses alunos no rendimento escolar (Ansari and Karmiloff-Smith, 2002; Blondis, 1996; Hynd, Hooper and Takahashi, 1998; Lindsay, 1996; Ramus, 2003; Shapiro, 1996; Temple, 2002; Voeller, 1998) e estão entre as principais causas de retenção e evasão escolar (Ansari and Karmiloff-Smith, 2002; Lindsay, 1996; McCracken, 1998; Shuresh and Sebastian, 2000).

Resumidamente, um indivíduo sem rebaixamento intelectual é caracterizado como portador de:

a) Distúrbios de Atenção e Hiperatividade: quando apresenta sinais de

1) Desatenção: dificuldade de manter a atenção em tarefas ou jogos; parece não ouvir o que se fala; dificuldade em organizar tarefas ou atividades; perde coisas; distrai-se com qualquer estímulo, etc;
2) Hiperatividade: freqüentemente deixa a classe; está sempre mexendo com os colegas; fala muito; corre e sobe em arvores, móveis,...; etc;
3) Impulsividade: interrompe as atividades de outros; não espera a vez; crises de agressividade; bate nos colegas; lidera insubordinações, etc.

b) Dislexia: quando começa a apresentar dificuldades para reconhecer letras ou ler e escrever, embora tenha uma inteligência não comprometida, isto é, um QI normal;

c) Discalculia: quando o indivíduo apresenta dificuldades para reconhecer quantidades ou números e/ou realizar os cálculos aritméticos.

O aluno pode apresentar os quatro tipos de distúrbios em conjunto ou qualquer combinação entre eles.

A dificuldade do aluno em se alfabetizar provoca sérios problemas e atritos com o professor e a direção da escola. A combinação desses problemas com a hiperatividade e impulsividade, por um lado, amplifica os problemas disciplinares e por outro lado gera no aluno uma aversão ao ambiente escolar. O resultado pode ser o aluno abandonar a escola, principalmente quando sua família não é bem organizada e não valoriza a educação escolar.

Numa sociedade cada vez mais tecnológica, o indivíduo analfabeto ou com deficiência em sua formação acadêmica encontra sérios problemas na obtenção de empregos que lhe garantam uma vida econômica satisfatória. O estresse causado por essa situação vai aumentar em muito da desadaptação do indivíduo que abandonou a escola pelos problemas acima expostos. Em particular, sua impulsividade diante de situações difíceis pode rapidamente exacerbar seu comportamento agressivo, resultando em atitudes anti-sociais, que no seu progredir vai resultar na marginalização do indivíduo.

Pesquisas recentes também vêm mostrando que esses problemas neurológicos podem ser de origem genética ou então causados por pequenas lesões distribuídas por várias áreas do cérebro que, só com técnicas muito recentes de ressonância magnética e mapeamento cerebral, podem ser detectadas. Tais lesões podem ser provocadas durante a gestação ou mesmo durante o período da primeira infância da criança. Fatores da gestação pertinentes à mãe e causadores desses problemas são: estresse, má alimentação, uso de drogas (inclusive álcool e cigarro), problemas de saúde como pressão alta ou baixa, deslocamento de placenta, entre outros. Fatores da primeira infância pertinentes às crianças podem incluir estresse, espancamento, certas doenças, entre outros. Quanto ao estresse precoce devido a maus tratos experimentados pela criança nos seus primeiros anos de vida e quanto ao rompimento das relações entre mãe e filho é importante ressaltar que vários pesquisadores mostram alterações cerebrais nessas crianças, que se correlacionam tanto a uma redução do desenvolvimento cognitivo quanto a distúrbios psiquiátricos.

O estresse a que fica submetida a criança durante a gravidez ou durante sua infância provoca uma série de alterações hormonais que acabam resultando em lesões orgânicas do cérebro. Dessa maneira o desajuste social se transforma em uma disfunção orgânica, que retroalimenta e amplifica esse desajuste social.

O desconhecimento das causas de hiperatividade, desatenção, impulsividade e dificuldades de aprendizagem por parte dos professores e responsáveis pelo sistema de educação pública, leva em geral a uma avaliação errônea da capacidade cognitiva e emocional do aluno, que irá adicionar mais um ingrediente para retroalimentar o seu desajuste socio-familiar, e por conseqüência amplificar sua disfunção biológica.

Torna-se, portanto, fundamental a capacitação de professores e dirigentes do ensino público sobre os temas acima abordados, para que possam melhor compreender e ajudar o aluno em suas dificuldades e desajustes, ao invés de se constituírem em mais um fator agravante desse desajuste.

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